Capítulo 1

Ponto cego

São 8:15 e Paulo acorda assustado. Olha para o relógio e não acredita no que vê. Levanta-se rapidamente e vai para o banheiro. Sabe que não adianta ter muita pressa agora, pois já está, pelo menos, quinze minutos atrasado. Toma um banho de menos de três minutos e escova os dentes em alguns segundos. Volta para o quarto e abre o guarda-roupas. Ele sempre tem problemas para escolher roupas para datas importantes. Normalmente, faz combinações que uma pessoa com uma mínima noção de estilo nunca faria. Entretanto, a falta de estilo é o menor dos seus problemas agora, pois deveria estar do outro lado da cidade apresentando um relatório que pode definir o seu futuro na empresa. Começa a considerar a possibilidade de ficar em casa e telefonar para o chefe e dizer que está muito doente, mas quais são as chances dele acreditar nisso?

 

O Sr. Coutinho é famoso por ser impaciente e pouco educado. Por esse motivo, todas as reuniões da empresa são marcadas pelo estresse e, até mesmo, um certo medo. Ninguém quer testar a paciência do chefe, apresentando uma informação incorreta ou cometendo qualquer outro tipo de erro. Chegar atrasado, por exemplo, seria o pior deles e, frequentemente, as pessoas vão para a empresa até uma hora antes do horário normal de trabalho. Todos vivem a filosofia “melhor esperar uma hora do que aguentar o chefe reclamando por cinco minutos”. Porém, o Sr. Coutinho também sabe ser uma pessoa agradável. Dizem que ele adora crianças! Paulo nunca acreditou nisso, mas sabe que a única pessoa que, com certeza, escapa das crises de mau humor do chefe é  a mãe dele, Dona Beatriz. Ele faz absolutamente tudo que pode por ela. “Ele poderia ter, pelo menos, um por cento de paciência comigo hoje!”

 

 

 

Capítulo 1 - Segunda-feira, quinze de junho

Enquanto prepara os documentos que precisa levar para a reunião, verifica o celular para ver se tem alguma mensagem nova. Para sua surpresa, não há mensagens, mas duas chamadas não atendidas. Todas de Cristina, a assistente do Sr. Coutinho. “Merda!”

 

Olha novamente para a mesa e entende por que  os colegas o chamam de desorganizado. “Que bagunça!” Coloca tudo o que precisa em sua pasta e se prepara para sair de casa. Fecha as janelas e corre em direção à porta. Todo minuto é importante! Tranca a porta e aperta o botão do elevador quase ao mesmo tempo. Enquanto espera, tenta imaginar as justificativas que pode falar para o chefe. Nunca foi bom em improvisar e, por isso, gostaria de estar preparado para mentir com a competência de um profissional nesse assunto. Durante os longos segundos em que estava concentrado em seus pensamentos quase não percebeu que o telefone estava tocando. O nome Cristina aparece na tela de novo. Pensa por alguns segundos e decide não atender. Ainda não sabe o que dizer e sabe que precisa ganhar algum tempo para inventar uma história.  O elevador chega e ele continua sua batalha contra o tempo. Ironicamente, agora precisa ganhar tempo para tentar recuperar um pouco do que já perdeu.